Sexta-feira, Setembro 17, 2004

Sophia

Ontem reli a obra de Sophia. Não completa, claro, apenas a poesia. Vou ler os contos agora. Fico impressionado como se descobrem sempre coisas novas num texto que já conhecemos, como acontece quando esse texto é superior. Gostava de ter conhecido a Sophia.
Dica do dia: uma palavra vazia

3 Comments:

Blogger LipaXana said...

Ler Sophia é sempre uma boa descoberta ou redescoberta... toda a sua escrita tem um toque especial como se transportasse sempre o sua voz na leitura.
Ass: CaMiLiNhA
{http://simplesmentepalavras.blogs.sapo.pt}

18 de Setembro de 2004 3:27  
Anonymous Anónimo said...

Sophia nossa

«A coisa mais antiga de que nos lembramos é, provavelmente, da história da menina do mar ou da viagem de Hans. Crescemos com as histórias de Sophia e com elas sonhámos e aprendemos a fazer as nossas histórias. Mais tarde, voltámos a encontrá-la nos poemas e a ouvi-la em canções. Sophia nunca esteve longe e o mais certo é cumprir-se o verso «O poema me levará no tempo». Agustina, falando de Sophia, disse que ela estará perto da eternidade e que é uma pessoa «em quem a juventude está sempre presente, física e moralmente». É quando nos recordamos de alguns seus versos que parece terem estado toda a vida connosco, como se da voz de um anjo da guarda ou dos «anjos do vento» se tratasse.
As palavras de Sophia têm o dom de parar o tempo ou provocar em nós uma paragem: não ousamos ver, mas estas palavras obrigam-nos a pensar e reduzem-nos a velocidade. Paramos. Já não é o quotidiano que interessa, pois os versos tornam-se uma verdade e queimam-nos. A poesia e a narrativa de Sophia colam-se ao nosso corpo, confrontam-nos, provocam-nos. E depois os versos seguem-nos para todo o lado. Bem dizia Eduardo Lourenço que há nomes predestinados.»
Estas foram as palavras de um texto que escrevi quando visitei Sophia na sua casa, na Travessa das Mónicas, num 9 de Maio de 2000. No único contacto com a poetisa, aquela que sempre considerei o meu poeta de eleição, senti-me diminuto perante tanta grandeza. Ela estava já um pouco tolhida pela idade, mas mantinha um ar distinto. A mão segurava a cigarrilha e olhava-me, e a cinco alunos, como quem sonda. Lembro-me que nos obrigou a um silêncio visual, como se fosse necessário convocar a contemplação. Qualquer palavra iria destruir aquela unidade, sob a qual nos tornáramos seus reféns. Deixou-nos constrangidos, olhos nos olhos, até ficarmos abalados pelo peso da circunstância. Estar com Sophia era, creio, uma prova vital. Não havia fuga possível. De contrário, nem valeria a pena estar com ela. A sua segurança foi o que mais me impressionou. Nunca imaginei ser possível estar com alguém desconhecido e não trocar palavra durante tanto tempo. Depois, oferecemos-lhe um quadro com fotografias suas, de vários tempos. E nessa altura desfez-se em palavras e recordações.
Recordo que quando nos assinou livros seus, baralhou a data e disse que era estranho o ano 2000. Com efeito, sabemo-la despistada com as minudências circunstanciais, o que é a sua forma de estar atenta a outras realidades. E a sua tinha sido circunscrita ao século que começa com os algarismos 1 e 9.
Lembrámos-lhe que vínhamos de Arronches e Monforte, pequenas vilas alentejanas. Perguntou-nos se eram belas. Eu disse que não tanto como Cacela, mas que tinham a beleza que aqueles lugares para si reservaram. Prometeu visitar-nos. Nunca o fez. Imagino que talvez nunca o fizesse, especialmente por ter a idade que tinha. Agora, acredito que possa vir cá. Tal como esses anjos de que fala.
Dela disse Agustina, num texto que tenho a honra de me ser oferecido: «a Sophia, creio que se movia entre a Granja e os jardins das Hespérides, sempre a chegar tarde a toda a parte menos aos seus encontros com a poesia».
É dela a eternidade.

António Jacinto Pascoal
Professor
Arronches

18 de Setembro de 2004 16:13  
Blogger andreia said...

Confesso que Sophia, para mim, é a aristocrata da moral. A busca da perfeição, da justiça, da beleza não me agradam. Por muito estranho que pareça. Reconheço-lhe no entanto um estilo único e uma forma de fazer poesia em que cada palavra é uma pedra de sol. Não é a forma de escrever de Sophia que me desagrada. É a filosofia do que ela escreve.

Parabéns pelo blogue.

http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/

5 de Maio de 2005 0:03  

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