Sophia
Ontem reli a obra de Sophia. Não completa, claro, apenas a poesia. Vou ler os contos agora. Fico impressionado como se descobrem sempre coisas novas num texto que já conhecemos, como acontece quando esse texto é superior. Gostava de ter conhecido a Sophia.
Dica do dia: uma palavra vazia
Dica do dia: uma palavra vazia
3 Comments:
Ler Sophia é sempre uma boa descoberta ou redescoberta... toda a sua escrita tem um toque especial como se transportasse sempre o sua voz na leitura.
Ass: CaMiLiNhA
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Sophia nossa
«A coisa mais antiga de que nos lembramos é, provavelmente, da história da menina do mar ou da viagem de Hans. Crescemos com as histórias de Sophia e com elas sonhámos e aprendemos a fazer as nossas histórias. Mais tarde, voltámos a encontrá-la nos poemas e a ouvi-la em canções. Sophia nunca esteve longe e o mais certo é cumprir-se o verso «O poema me levará no tempo». Agustina, falando de Sophia, disse que ela estará perto da eternidade e que é uma pessoa «em quem a juventude está sempre presente, física e moralmente». É quando nos recordamos de alguns seus versos que parece terem estado toda a vida connosco, como se da voz de um anjo da guarda ou dos «anjos do vento» se tratasse.
As palavras de Sophia têm o dom de parar o tempo ou provocar em nós uma paragem: não ousamos ver, mas estas palavras obrigam-nos a pensar e reduzem-nos a velocidade. Paramos. Já não é o quotidiano que interessa, pois os versos tornam-se uma verdade e queimam-nos. A poesia e a narrativa de Sophia colam-se ao nosso corpo, confrontam-nos, provocam-nos. E depois os versos seguem-nos para todo o lado. Bem dizia Eduardo Lourenço que há nomes predestinados.»
Estas foram as palavras de um texto que escrevi quando visitei Sophia na sua casa, na Travessa das Mónicas, num 9 de Maio de 2000. No único contacto com a poetisa, aquela que sempre considerei o meu poeta de eleição, senti-me diminuto perante tanta grandeza. Ela estava já um pouco tolhida pela idade, mas mantinha um ar distinto. A mão segurava a cigarrilha e olhava-me, e a cinco alunos, como quem sonda. Lembro-me que nos obrigou a um silêncio visual, como se fosse necessário convocar a contemplação. Qualquer palavra iria destruir aquela unidade, sob a qual nos tornáramos seus reféns. Deixou-nos constrangidos, olhos nos olhos, até ficarmos abalados pelo peso da circunstância. Estar com Sophia era, creio, uma prova vital. Não havia fuga possível. De contrário, nem valeria a pena estar com ela. A sua segurança foi o que mais me impressionou. Nunca imaginei ser possível estar com alguém desconhecido e não trocar palavra durante tanto tempo. Depois, oferecemos-lhe um quadro com fotografias suas, de vários tempos. E nessa altura desfez-se em palavras e recordações.
Recordo que quando nos assinou livros seus, baralhou a data e disse que era estranho o ano 2000. Com efeito, sabemo-la despistada com as minudências circunstanciais, o que é a sua forma de estar atenta a outras realidades. E a sua tinha sido circunscrita ao século que começa com os algarismos 1 e 9.
Lembrámos-lhe que vínhamos de Arronches e Monforte, pequenas vilas alentejanas. Perguntou-nos se eram belas. Eu disse que não tanto como Cacela, mas que tinham a beleza que aqueles lugares para si reservaram. Prometeu visitar-nos. Nunca o fez. Imagino que talvez nunca o fizesse, especialmente por ter a idade que tinha. Agora, acredito que possa vir cá. Tal como esses anjos de que fala.
Dela disse Agustina, num texto que tenho a honra de me ser oferecido: «a Sophia, creio que se movia entre a Granja e os jardins das Hespérides, sempre a chegar tarde a toda a parte menos aos seus encontros com a poesia».
É dela a eternidade.
António Jacinto Pascoal
Professor
Arronches
Confesso que Sophia, para mim, é a aristocrata da moral. A busca da perfeição, da justiça, da beleza não me agradam. Por muito estranho que pareça. Reconheço-lhe no entanto um estilo único e uma forma de fazer poesia em que cada palavra é uma pedra de sol. Não é a forma de escrever de Sophia que me desagrada. É a filosofia do que ela escreve.
Parabéns pelo blogue.
http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/
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