Quarta-feira, Setembro 22, 2004

Da Outra Margem

Em jeito de pré-publicação, deixamos para os nossos leitores um extracto do próximo romance a ser publicado pela “Amores Perfeitos”, Da Outra Margem, de José Nuno Pereira Pinto.
Este livro é, acima de tudo, uma Memória de uma época, mais propriamente de um lustro, 1940-1945. É uma sequência imprevista de narrativas, mesclada com momentos de investigação histórica, logo seguida de momentos de tensão emocional, existencial, explanada no diário, logo percorrido – o livro – romance, por cartas, que trarão ao leitor os errores de uma personagem que protagonizou uma das aventuras mais apaixonantes que alguém podia ter vivido. O livro é, ainda, mesclado de momentos com dados da religiosidade da época e, definitivamente finda, com momentos de interesse etnológico, mostrando como se viviam os reflexos do conflito bélico que arrasava a Europa e ainda os valores morais e intelectuais daquela época, a Escola e os seus valores morais e cívicos, o Salazarismo, em meio rural.


«Pois um dia, o Bernardino Bandeira, o Manaita, como lhe chamavam, que vivia num palheiro com outros e que era das andanças do Manuel da Cavada, só que para o mais sossegado, até porque ia tendo seus precisositos, foi apanhar azeitonas para os olivais de Donim, onde poisavam bandos de tordos e de estorninhos, daqueles pretos e luzidios. Encheu um saco dela e a mando do dono, o Sr. Xavier, ia levá-la à azenha da Chieira. O saco era dos de serapilheira, muito grosseira que não deixava ver a azeitona que era um luxo de se ver e que dava azeite muito bom. Carrega o saco às costas, aí com uns cinquenta quilos e sobe, descalço, pelo caminhito que vem dar ao Nicho. Sobe lento, ao ritmo da cantiga que assobiava e que se cantava nas cantas: No alto daquela serra / Vejo um lenço / Vejo um lenço de mil cores / Está dizendo viva, viva / Morra quem morra quem não tem amores. Chega à estrada, mesmo junto ao Nicho e logo ouve um barulho que não era de carro de bois, mas deveria ser da tal carrazeta, que até deitava muito fumo que a subida de Nespereira até ali, é muita e o esforço é grande. E era. Logo a viu com aqueles dois olhos na frente e um focinho muito comprido.
O Manaita tinha o saco na berma e aprontava-se para o pôr às costas, quando o Sr. Teles pára mesmo junto. Ó Sr. Bernardino você salte para aqui, que eu o levo até ao Santo nem tem precisão de ir com um carrego desses que é medonho, homem. Ó Senhor Teles, responde-lhe o Manaita, receoso e desconfiado, não há precisão disso. Mas olhe que é um caminhar seguro. Olhe Sr. Teles, lá o carrego agradeço que mo leve, agora eu não vou. E vocemecê sabe porquê? Já lá dizia o Frei Baldumiro, que quando virdes as coisas a andar, com olhos, sem ninguém as puxar, a fim do mundo está próximo. E o Sr. Teles prosseguiu. Meia hora depois estava Bernardino, no Santo. Carrega o saco, desce pelo caminho, logo ao lado, que dá à estrada, entra na rua da Igreja, atravessa o Passal, chega ao caminho da Tábua, e logo está na azenha, envolta de sombra dos amieiros, nos murmúrios das águas e do canto dos melros e rouxinóis.»