Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Sonhar

Escrevi hoje o amor nos sonhos que tive na noite escura. Escrevi o amor em versos sonhados e fui feliz de olhos cerrados. Acordei. E vi como é possível o mundo ser justo e maravilhoso por me deixar sonhar o amor de olhos acordados.

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

Vida Zen Moderna

Eu medito
E agito
A vida interior

A vida interior
Tem bicho
Ranço e bolor

Eu medito
E a bicharada
Espevito

Não sei para quê
Depois
Tenho de usar DDT


Poema de Sara Monteiro

Sexta-feira, Outubro 15, 2004

O dia cai

O dia cai sobre as árvores,
Virá a noite trazer o silêncio.
Entre mim e o amor
Não há lamento algum,
Tão-só o ar ensinando às folhas
A dor, a dor, a dor.


Vítor Ramos e Azevedo

Sexta-feira, Setembro 24, 2004

Outono

Dizem que no Outono começa a poesia. É o tempo de voltar a casa, aos livros e à escrita. É como se o ano dos poetas começasse agora e, para estes efeitos, fossem estes dias o seu Janeiro.

Quarta-feira, Setembro 22, 2004

Da Outra Margem

Em jeito de pré-publicação, deixamos para os nossos leitores um extracto do próximo romance a ser publicado pela “Amores Perfeitos”, Da Outra Margem, de José Nuno Pereira Pinto.
Este livro é, acima de tudo, uma Memória de uma época, mais propriamente de um lustro, 1940-1945. É uma sequência imprevista de narrativas, mesclada com momentos de investigação histórica, logo seguida de momentos de tensão emocional, existencial, explanada no diário, logo percorrido – o livro – romance, por cartas, que trarão ao leitor os errores de uma personagem que protagonizou uma das aventuras mais apaixonantes que alguém podia ter vivido. O livro é, ainda, mesclado de momentos com dados da religiosidade da época e, definitivamente finda, com momentos de interesse etnológico, mostrando como se viviam os reflexos do conflito bélico que arrasava a Europa e ainda os valores morais e intelectuais daquela época, a Escola e os seus valores morais e cívicos, o Salazarismo, em meio rural.


«Pois um dia, o Bernardino Bandeira, o Manaita, como lhe chamavam, que vivia num palheiro com outros e que era das andanças do Manuel da Cavada, só que para o mais sossegado, até porque ia tendo seus precisositos, foi apanhar azeitonas para os olivais de Donim, onde poisavam bandos de tordos e de estorninhos, daqueles pretos e luzidios. Encheu um saco dela e a mando do dono, o Sr. Xavier, ia levá-la à azenha da Chieira. O saco era dos de serapilheira, muito grosseira que não deixava ver a azeitona que era um luxo de se ver e que dava azeite muito bom. Carrega o saco às costas, aí com uns cinquenta quilos e sobe, descalço, pelo caminhito que vem dar ao Nicho. Sobe lento, ao ritmo da cantiga que assobiava e que se cantava nas cantas: No alto daquela serra / Vejo um lenço / Vejo um lenço de mil cores / Está dizendo viva, viva / Morra quem morra quem não tem amores. Chega à estrada, mesmo junto ao Nicho e logo ouve um barulho que não era de carro de bois, mas deveria ser da tal carrazeta, que até deitava muito fumo que a subida de Nespereira até ali, é muita e o esforço é grande. E era. Logo a viu com aqueles dois olhos na frente e um focinho muito comprido.
O Manaita tinha o saco na berma e aprontava-se para o pôr às costas, quando o Sr. Teles pára mesmo junto. Ó Sr. Bernardino você salte para aqui, que eu o levo até ao Santo nem tem precisão de ir com um carrego desses que é medonho, homem. Ó Senhor Teles, responde-lhe o Manaita, receoso e desconfiado, não há precisão disso. Mas olhe que é um caminhar seguro. Olhe Sr. Teles, lá o carrego agradeço que mo leve, agora eu não vou. E vocemecê sabe porquê? Já lá dizia o Frei Baldumiro, que quando virdes as coisas a andar, com olhos, sem ninguém as puxar, a fim do mundo está próximo. E o Sr. Teles prosseguiu. Meia hora depois estava Bernardino, no Santo. Carrega o saco, desce pelo caminho, logo ao lado, que dá à estrada, entra na rua da Igreja, atravessa o Passal, chega ao caminho da Tábua, e logo está na azenha, envolta de sombra dos amieiros, nos murmúrios das águas e do canto dos melros e rouxinóis.»

Segunda-feira, Setembro 20, 2004

Poema

A nossa autora Maria Emília Morgado ofereceu-nos gentilmente este poema para publicação neste espaço. Para ela um forte bem haja.

Solidão

Hoje estou só
Nesta casa muito grande
Enorme
Para a minha solidão
Quero ver
Gente minha
À volta
Sentir os passos
O cheiro
O barulho
Que hoje não existe
Nesta casa ampla
Onde já houve barafunda
Confusão
É triste sentir isolação
Numa casa vazia
Ela está em todo o lado
Enche os buracos
As fendas
Os panos
Passa por cima
Dos móveis
Das cadeiras
Deita-se na cama
Vê televisão
Ficando sem espaço
O espaço vazio da casa
Enquanto passam as horas
Vai crescendo isolamento
Torna-se enorme
Disforme
Na casa agora vazia
Deixa de haver aconchego
Para tanta solidão
Que estar só
Não é desgraça
Pior é sentir vazio
Mesmo estando acompanhada
Hoje
A minha solidão
É passageira.


Mili
(18.09.04)

Sexta-feira, Setembro 17, 2004

Sophia

Ontem reli a obra de Sophia. Não completa, claro, apenas a poesia. Vou ler os contos agora. Fico impressionado como se descobrem sempre coisas novas num texto que já conhecemos, como acontece quando esse texto é superior. Gostava de ter conhecido a Sophia.
Dica do dia: uma palavra vazia